Tirando dúvidas com a Dra. Fernanda Fahel

pensnado

Ao longo desses nove meses de blog, percebi que a iodoterapia, terapia com iodo radioativo, é um dos temas que mais intriga pacientes e parentes de pessoas com câncer de tireoide. Além de ter tido várias dúvidas na época em que fiz a cintilografia e a PCI, vejo diariamente os termos utilizados em buscas feitas pelo Google e que acabam trazendo leitores para cá.

Publicar uma entrevista sobre o tema era um desejo antigo e, felizmente, este dia chegou! :)

A Dra. Fernanda Fahel, especialista em Medicina Nuclear pela UNICAMP e titulada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, gentilmente respondeu os muitos questionamentos baseados em dúvidas pessoais e nos resultados da busca do Google.

Dra.

Vamos conferir?

Enquanto algumas dietas são bastante restritivas e proíbem itens como leite, ovos e queijo, existem clínicas que são mais liberais e permitem o consumo destes e de outros produtos. Por que existe essa diferença? O consumo de leite, queijo, ovos e achocolatado faz alguma diferença no resultado final?

Dra. Fernanda Fahel – A dieta pobre em iodo nos 7-14 dias que antecedem a administração oral de I131 é recomendada pela grande maioria dos serviços de Medicina Nuclear. Essa recomendação é feita com o objetivo de reduzir a quantidade de iodo não radioativo no corpo do paciente e de incrementar a captação do I131 e a consequente irradiação de tecido tireoidiano residual ou das metástases de carcinoma de tireoide.

Apesar de alguns trabalhos publicados na literatura mostrarem os benefícios da restrição do iodo na dieta, a influência dessa dieta na taxa de sucesso da terapia ainda não foi demonstrada de forma efetiva. Por esse motivo, talvez, alguns serviços recomendem dietas mais ou menos restritivas que outros.

O que evitar numa dieta restrita em iodo? O uso de cosméticos realmente influencia no resultado? Porque? 

FF – De uma forma geral, os alimentos que mais contém iodo e que devem ser evitados no processo de iodoterapia são: sal iodado, frutos do mar, embutidos, enlatados, salgadinhos, molho de soja, defumados e alguns tipos de folhagens (como agrião, repolho, couve e aipo).

Alguns serviços restringem ainda ovos, pães industrializados, leite integral e queijos.

Outras fontes de iodo também devem ser evitadas por um período de 30 dias que antecedem ao tratamento como tinturas para cabelos, esmaltes de unha,  bronzeadores, soluções tópicas (alcool iodado, polvidine), alguns tipos de medicações que contenham iodo (xaropes, suplementos vitamínicos) e até preventivo ginecológico. Antiarrítmicos e contrastes iodados devem ser evitados durante um período de três meses antes da iodoterapia por conterem elevada concentração de iodo.

Durante a dieta pobre em iodo, posso tomar banho de mar?

FF – Da mesma forma, o banho de mar expõe o paciente ao contato com iodo nas mucosas e pele, devendo ser evitado.

Quantos dias com restrição de iodo são necessários para fazer a cintilografia?

FF – Para realização de pesquisa de corpo inteiro com I131 ou cintilografia cervical, o preparo necessário é o mesmo da iodoterapia, ou seja, todas as orientações já discutidas.

Quais são os possíveis efeitos colaterais imediatos da iodoterapia?

FF – Os efeitos colaterais da iodoterapia geralmente são discretos e bem tolerados e estão muito relacionados a dose de I131 administrada (doses menores tem chance muito pequena de causar esses efeitos). Nas doses maiores os efeitos mais frequentes são náuseas e sialoadenite e podem ser minimizados e evitados através do uso de antieméticos e adotando-se medidas de estímulo das glândulas salivares com frutas cítricas, balas e hidratação constante.

Quais são os sintomas após 30 dias de tratamento de iodoterapia? A queda de cabelo acentuada após o processo é normal? 

FF – Após 30 dias do tratamento, as queixas mais comuns são ganho de peso e a queda de fâneros (cabelos). Esses sintomas são comuns nos pacientes expostos ao hipotireoidismo pré-tratamento (pacientes que não fizeram uso do Thyrogen), porém são transitórios e cessam dentro de poucos meses.

Qual é a diferença entre pet scan e pci?

FF – PCI com I131 significa Pesquisa de corpo inteiro com I131  e tem a finalidade de demonstrar restos tireoidianos e metástases ao longo do corpo do paciente com câncer de tireoide. Esse exame nos dias atuais poderá ou não ser solicitado antes da iodoterapia.

 Já o PET Scan (Tomografia por Emissão de Pósitrons) é um exame de corpo inteiro que pode ser solicitado quando se suspeita de progressão da doença (p. ex. elevação da tireoglobulina) e não se encontra os focos de doença pelos exames convencionais ( USG, PCI, Tomografias).

A tireoglobulina pode aumentar na iodoterapia? 

FF – Não é a iodoterapia a responsável pela elevação dos valores de tireoglobulina. O que ocorre é que,  quando o paciente se prepara para o tratamento, seja suspendendo o uso do hormônio tireoidiano ou através do uso do Thyrogen, haverá uma elevação do TSH do paciente e por consequência disso, a tireoglobulina será sensibilizada. Nos pacientes com doença residual a tireoglobulina poderá aumentar nesse período.

Tive contato com pessoa que fez iodoterapia. E agora?

FF – Quando o paciente que acabou de realizar a radioiodoterapia recebe alta hospitalar, os níveis de radioatividade no corpo do mesmo são baixos o suficiente para que ele possa manter convívio social, sem causar nenhum tipo de prejuízo para os indivíduos a sua volta. Esse paciente receberá, ainda, algumas orientações de cuidados para minimizar a exposição a mulheres grávidas e crianças  e a outras pessoas do convívio familiar.

A iodoterapia após tireoidectomia engorda?

FF – Como já discutido anteriormente, a iodoterapia não é a causadora do aumento ponderal do paciente e sim, o estado de hipotireoidismo que o paciente poderá ser submetido antes do tratamento. Após reestabelecer os níveis de hormônios no sangue, tudo vai voltando ao normal.

Espero que possa ajudar e que tenham gostado! Mil obrigadas pela participação, Dra. Fernanda! :)

Onde Dra. Fernanda Fahel atende:

• Clínica GAMMA (Unidade de Medicina Nuclear do Hospital da Bahia) – 71 2109-1149 | 71 2109-1165
• Clinica Diagnoson
• Hospital Aristides Maltez
Anúncios

Radioativa? Eu?!

Chuva-nuclear
Mais uma vez vou adiar as postagens sobre a dieta sem iodo. Motivo? Ela será retomada em breve, então vamos deixar esse assunto mais pra frente. ;)

Após a cirurgia, fui encaminhada para a consulta com um médico nuclear. “Médico nuclear? O que é isso?”.

A Medicina Nuclear é uma especialidade médica que emprega materiais radioativos com finalidade diagnóstica e terapêutica. […] Embora empregue elementos radioativos, os exames utilizados em Medicina Nuclear são muito seguros. Na prática, o objetivo é sempre usar a menor quantidade de radiação possível. Os aparelhos são calibrados para obter imagens de qualidade e injetam-se radiofármacos em quantidades controladas, sob supervisão do médico especialista na área. 

Fonte: Fleury – Medicina e Saúde

A medicina nuclear é bastante eficiente e “conversa” com as mais diversas áreas, desde a endocrinologia, passando pela oncologia, cardiologia, pneumologia e por aí vai. Aqui em Salvador, fui atendida pela Dra. Fernanda Fahel na clínica Gamma, que fica no Hospital da Bahia.

Pra começo de conversa, foram solicitados exames de sangue e uma cintilografia da região cervical. Sabem o que isso significa? A tão falada dieta sem iodo.

Após duas semanas de privações e um mau humor daqueles, eis que chega o dia de fazer a primeira parte do exame. Consiste em ingerir, após jejum de duas horas, uma pequena dose de iodo radioativo (conhecido como I-131) e aguardar mais duas horas para fazer a captação (traduzindo: dar uma olhada pra ver se existem resquícios consideráveis de tecidos tireoidianos. Se sim, iodoterapia neles. Se não, um beijo e vá para o endocrinologista).

Se você pensa que iodo é água. Iodo não é água, não, mas bem que passaria despercebido, pois não tem gosto, cor e nem cheiro. A minha dose, que está nesse copinho da foto abaixo, foi de 80 uCi (aprendi que se diz Microcurie). Foi uma dosagem baixinha, utilizada só pra fazer o exame. De qualquer forma, as recomendações são as mesmas de quem faz a terapia com iodo em doses maiores: evitar contato com gestantes e crianças

iodo01

[Pausa para uma informação extremamente técnica que só deve interessar a quem está passando pela mesma etapa] No grupo Amigas da Tireóide pude observar que a dose de início da iodoterapia é de 100 mCi (ou Millicurie). Ah! E aprendi que 1 mCi equivale a 1000 uCi. [Fim]

Depois de tomar o iodo radioativo, me senti igual. Cadê os superpoderes? A habilidade de ficar invisível? A pele ficando verde e brilhante? Bom, então já que não dava pra me divertir, o jeito era esperar as tais duas horas numa ala reservada.

 gif-animado-gato-lixando-a-unha

Parte boa: estava passando MariMar.

marimar-horz

Sala e banheiro dos pacientes injetados

Dorgas, manolo!

Dorgas, manolo!

Após o período necessário, fui fazer a captação. Lembram da foto do iodo no copinho? Então… essa etapa nada mais é do ficar com aquele aparelho apontado para a região do pescoço por cerca de 3 ou 5 minutos.

No dia seguinte, voltei à Gamma e fiz a captação das 24h, seguida de uma dose de Tecnécio-99. Ela chega em uma seringa, dentro de um recipiente de chumbo.

 tec-vert

Ele foi injetado na veia e eu pensei “É agora! Vou virar o Capitão América!”, mas nada aconteceu de novo e eu fui esperar na salinha dos injetados mais uma vez. #fail

Depois de 30 minutos, hora de fazer mais captações, desta vez nesse aparelhão aqui:

aparelho

Deitei e tive que passar 20 minutos sem poder me mexer, ou seja: hora de sentir todas as coceiras do ano. No nariz, nos olhos, no pescoço, nas costas. Pura pirraça do corpo, claro.

Fim dos exames – hora de ir embora e COMEEEEEEEER! Sim! Eu estava livre da dieta! O que fiz? Já saí deixando as instruções com meu irmão. “Se der 16h30 e eu não ligar, pode encomendar uma pizza de atum com catupiry”. E aí, chegando em casa, o sentimento foi esse:

"você já viu algo tão maravilhoso em toda a sua vida?"

“você já viu algo tão maravilhoso em toda a sua vida?”

Na semana seguinte, voltei à clínica para pegar os resultados e para saber qual seria o próximo passo. Eis o laudo:

laudoo

Como restou um pouquinho de tecido e cruzando esse resultado com meus índices de TSH e tireoglobulina – que eu ainda não tenho capacidade de interpretar muito bem, uma das saídas oferecidas foi uma dose terapêutica de I-131 para “queimar” o que restou. Esse “resíduo” da cirurgia é normal, uma vez que nem sempre dá pra tirar 100% da tireoide sem comprometer outras estruturas, sendo assim, é mais seguro “limpar” até onde der e eliminar o que sobrar com a iodoterapia. Ai, como eu tô didática! :D

Enfim… sabem o que isso significa, né? Dieta de novo, aí vou eu!

Receitas, passo-a-passo e dicas para combater a larica nesse período? Vocês verão por aqui. ;)