Eu, o INSS e o chefe do Sr. Incrível

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Na época em que descobri o carcinoma papilífero, tinha duas possibilidades: receber o seguro desemprego ou o auxílio-doença. A primeira opção era mais cômoda, afinal, é um direito garantido e relativamente livre de burocracias. Conseguir o auxílio-doença daria mais trabalho, pois é preciso agendar horário, ir até um posto da Previdência Social, passar pela perícia e apresentar uma série de exames e um relatório médico. Quando a pessoa tem a “sorte” de estar desempregada e doente ao mesmo tempo, pode optar pelo benefício mais vantajoso e, no meu caso, era o segundo.

[em busca de mais informações sobre o auxílio-doença? Clique AQUI]

Reuni os documentos necessários e rumei para a agência que fica em Brotas. Vesti o meu melhor sorriso e usei todo o meu repertório da boa educação (“bom dia, tudo bem?”, “por favor”, “com licença”, “desculpe incomodar”) para ver se angariava a simpatia da galera, mas não teve jeito. A cada informação solicitada ou todas as vezes em que precisei lidar com alguém, tinha uma resposta burocrática/ríspida do outro lado.

[Pausa para reflexão] Você já esteve em uma agência da Previdência Social? Eu nunca tinha sequer passado pela calçada e me espantei com o que vi. Não vou me alongar falando da falta de cortesia da maioria dos funcionários e do sucateamento da estrutura. O que chamou mesmo a atenção foi ver idosos e pessoas com sérias dificuldades de locomoção tendo o mesmo atendimento que eu – que consigo andar e falar de maneira independente. Não tem uma fila de prioridade nem nada. É por ordem de chegada e todo mundo no mesmo balaio. [fim]

Passei por três perícias médicas em pouco mais de dois meses. Na primeira e na última, os peritos mal olharam pra mim. Deve existir alguma coisa no ar que faz com que as pessoas evitem o contato visual a todo custo.

E onde entra o chefe do Sr. Incrível nessa história?

No filme, Gilbert Huph é o diretor da seguradora onde o Sr. Incrível trabalha. O herói da história, ainda contaminado pelo desejo de fazer o bem, encontra brechas para conceder os benefícios para as pessoas e isso tira a felicidade do pequeno antagonista. Para ele, o importante é “ajudar o NOSSO pessoal” e o resto que se dane.

Por lá, vi um monte de Gilbert Huphs. Todos em busca de uma brecha para não conceder o benefício que, diga-se de passagem, é um direito meu. O que ouvi da perita na minha 2ª ida ao INSS foi que a doença existia (cêjura?), mas não era incapacitante. De fato, não é. Posso andar, falar e realizar a maioria das atividades normalmente, mas dá pra esconder a condição de um possível contratante? Não. E quem contrataria alguém que vai passar 15 dias afastada para a recuperação de uma cirurgia e talvez passe mais 30 com hipotireoidismo (e seus efeitos) 10 em isolamento? Rai ai…

Para fechar a história: finalmente me concederam o auxílio-doença. Também, né? Não tinha como ser diferente. Como dizer “não” para uma pessoa que foi operada há cinco dias e ainda está com os pontos no pescoço?

Por essas e outras é bom estar bem informado. Para isso, contarei com a ajuda da Cássia Montouto no próximo post. Ela é Assessora Jurídica do Instituto Oncoguia e editora do site Direito à Saúde.

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A descoberta – Parte II

Quando recebi meus primeiros exames e me deparei com o nódulo na tireóide, fiz o que todo mundo faz: pesquisei no Google. Li que em 90% dos casos os nódulos são benignos e só exigem acompanhamento mais próximo. Otimista (como sempre), acreditei que estaria entre estes e parei minhas leituras por aí.

Era o fim de uma manhã de quinta-feira quando peguei o resultado da punção aspirativa por agulha fina (PAAF), conhecida por ser melhor maneira de determinar o tipo de nódulo. Por  imaginar que não teria maiores complicações, fui sozinha e sozinha estava quando abri o envelope e li:

Blá blá blá blá blá blá linguagem médica que não entendo blá blá blá blá blá… Compatível com Carcinoma Papilífero (categoria VI da Classificação de Bethesda). 

Xiiii!

Não é preciso ser muito esperto pra saber que a palavra “carcinoma” não pode ser coisa boa, né? Na hora, senti uma onda de choque que foi do cabelo ao dedo mindinho do pé, mas me mantive calma e pesquisei no celular (um beijo para a internet móvel). O que li:

Tipos de Câncer de Tireoide

Carcinoma papilífero  (o “meu”) – É o tipo mais comum. Pode aparecer em pacientes de qualquer idade, porém predomina entre os 30 e 50 anos. Devido à longa expectativa de vida, estima-se que uma entre mil pessoas tem ou teve este tipo de câncer. A taxa de cura é muito alta, chegando a se aproximar de 100%.

Carcinoma folicular – Tende a ocorrer em pacientes com mais de 40 anos. É considerado mais agressivo do que o papilifero. Em dois terços dos casos, não tem tendência à disseminação. Um tipo de carcinoma folicular mais agressivo é o Hurthle, que atinge pessoas com mais de 60 anos.

Carcinoma medular – Afeta as células parafoliculares, responsáveis pela produção da calcitonia, hormônio que contribui na regulação do nível sanguíneo de cálcio. Esse tipo de câncer costuma se apresentar de moderadamente a muito agressivo, sendo de difícil tratamento.

Carcinoma anaplásico ou inmedular – É muito raro. Porém é o tipo mais agressivo e tem o tratamento mais difícil, sendo responsável por dois terços dos óbitos de câncer da tireoide.

Fonte: SBEM – Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

Ou seja: apesar de já ter uma poça de lágrimas no meu colo, eu tinha que comemorar! Dentro do possível, estava numa situação “confortável” perto do que poderia ser e isso me tranquilizou o suficiente para poder dirigir de volta pra casa. Lógico, passei o resto do dia chorando e quase chorando, mas com o passar do tempo, junto com o apoio inicial e a cada nova informação que encontrava, melhorei ao ponto de ir para a academia no mesmo dia.