Tirando dúvidas com a Dra. Fernanda Fahel

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Ao longo desses nove meses de blog, percebi que a iodoterapia, terapia com iodo radioativo, é um dos temas que mais intriga pacientes e parentes de pessoas com câncer de tireoide. Além de ter tido várias dúvidas na época em que fiz a cintilografia e a PCI, vejo diariamente os termos utilizados em buscas feitas pelo Google e que acabam trazendo leitores para cá.

Publicar uma entrevista sobre o tema era um desejo antigo e, felizmente, este dia chegou! :)

A Dra. Fernanda Fahel, especialista em Medicina Nuclear pela UNICAMP e titulada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, gentilmente respondeu os muitos questionamentos baseados em dúvidas pessoais e nos resultados da busca do Google.

Dra.

Vamos conferir?

Enquanto algumas dietas são bastante restritivas e proíbem itens como leite, ovos e queijo, existem clínicas que são mais liberais e permitem o consumo destes e de outros produtos. Por que existe essa diferença? O consumo de leite, queijo, ovos e achocolatado faz alguma diferença no resultado final?

Dra. Fernanda Fahel – A dieta pobre em iodo nos 7-14 dias que antecedem a administração oral de I131 é recomendada pela grande maioria dos serviços de Medicina Nuclear. Essa recomendação é feita com o objetivo de reduzir a quantidade de iodo não radioativo no corpo do paciente e de incrementar a captação do I131 e a consequente irradiação de tecido tireoidiano residual ou das metástases de carcinoma de tireoide.

Apesar de alguns trabalhos publicados na literatura mostrarem os benefícios da restrição do iodo na dieta, a influência dessa dieta na taxa de sucesso da terapia ainda não foi demonstrada de forma efetiva. Por esse motivo, talvez, alguns serviços recomendem dietas mais ou menos restritivas que outros.

O que evitar numa dieta restrita em iodo? O uso de cosméticos realmente influencia no resultado? Porque? 

FF – De uma forma geral, os alimentos que mais contém iodo e que devem ser evitados no processo de iodoterapia são: sal iodado, frutos do mar, embutidos, enlatados, salgadinhos, molho de soja, defumados e alguns tipos de folhagens (como agrião, repolho, couve e aipo).

Alguns serviços restringem ainda ovos, pães industrializados, leite integral e queijos.

Outras fontes de iodo também devem ser evitadas por um período de 30 dias que antecedem ao tratamento como tinturas para cabelos, esmaltes de unha,  bronzeadores, soluções tópicas (alcool iodado, polvidine), alguns tipos de medicações que contenham iodo (xaropes, suplementos vitamínicos) e até preventivo ginecológico. Antiarrítmicos e contrastes iodados devem ser evitados durante um período de três meses antes da iodoterapia por conterem elevada concentração de iodo.

Durante a dieta pobre em iodo, posso tomar banho de mar?

FF – Da mesma forma, o banho de mar expõe o paciente ao contato com iodo nas mucosas e pele, devendo ser evitado.

Quantos dias com restrição de iodo são necessários para fazer a cintilografia?

FF – Para realização de pesquisa de corpo inteiro com I131 ou cintilografia cervical, o preparo necessário é o mesmo da iodoterapia, ou seja, todas as orientações já discutidas.

Quais são os possíveis efeitos colaterais imediatos da iodoterapia?

FF – Os efeitos colaterais da iodoterapia geralmente são discretos e bem tolerados e estão muito relacionados a dose de I131 administrada (doses menores tem chance muito pequena de causar esses efeitos). Nas doses maiores os efeitos mais frequentes são náuseas e sialoadenite e podem ser minimizados e evitados através do uso de antieméticos e adotando-se medidas de estímulo das glândulas salivares com frutas cítricas, balas e hidratação constante.

Quais são os sintomas após 30 dias de tratamento de iodoterapia? A queda de cabelo acentuada após o processo é normal? 

FF – Após 30 dias do tratamento, as queixas mais comuns são ganho de peso e a queda de fâneros (cabelos). Esses sintomas são comuns nos pacientes expostos ao hipotireoidismo pré-tratamento (pacientes que não fizeram uso do Thyrogen), porém são transitórios e cessam dentro de poucos meses.

Qual é a diferença entre pet scan e pci?

FF – PCI com I131 significa Pesquisa de corpo inteiro com I131  e tem a finalidade de demonstrar restos tireoidianos e metástases ao longo do corpo do paciente com câncer de tireoide. Esse exame nos dias atuais poderá ou não ser solicitado antes da iodoterapia.

 Já o PET Scan (Tomografia por Emissão de Pósitrons) é um exame de corpo inteiro que pode ser solicitado quando se suspeita de progressão da doença (p. ex. elevação da tireoglobulina) e não se encontra os focos de doença pelos exames convencionais ( USG, PCI, Tomografias).

A tireoglobulina pode aumentar na iodoterapia? 

FF – Não é a iodoterapia a responsável pela elevação dos valores de tireoglobulina. O que ocorre é que,  quando o paciente se prepara para o tratamento, seja suspendendo o uso do hormônio tireoidiano ou através do uso do Thyrogen, haverá uma elevação do TSH do paciente e por consequência disso, a tireoglobulina será sensibilizada. Nos pacientes com doença residual a tireoglobulina poderá aumentar nesse período.

Tive contato com pessoa que fez iodoterapia. E agora?

FF – Quando o paciente que acabou de realizar a radioiodoterapia recebe alta hospitalar, os níveis de radioatividade no corpo do mesmo são baixos o suficiente para que ele possa manter convívio social, sem causar nenhum tipo de prejuízo para os indivíduos a sua volta. Esse paciente receberá, ainda, algumas orientações de cuidados para minimizar a exposição a mulheres grávidas e crianças  e a outras pessoas do convívio familiar.

A iodoterapia após tireoidectomia engorda?

FF – Como já discutido anteriormente, a iodoterapia não é a causadora do aumento ponderal do paciente e sim, o estado de hipotireoidismo que o paciente poderá ser submetido antes do tratamento. Após reestabelecer os níveis de hormônios no sangue, tudo vai voltando ao normal.

Espero que possa ajudar e que tenham gostado! Mil obrigadas pela participação, Dra. Fernanda! :)

Onde Dra. Fernanda Fahel atende:

• Clínica GAMMA (Unidade de Medicina Nuclear do Hospital da Bahia) – 71 2109-1149 | 71 2109-1165
• Clinica Diagnoson
• Hospital Aristides Maltez
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Tirando dúvidas com Dr. Augusto Mendes

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Imagine a cena: você está vivendo a sua vida numa boa, planejando filhos, viagem ou mudança de cidade e aí… PUM! Cai a bomba de Hiroshima e você tem câncer de tireoide (ou qualquer outro câncer que seja). É paralisante em todos os sentidos da palavra. Paralisam-se os planos, você, a família, os amigos mais próximos. Fica todo mundo em suspensão, sem saber o que vai acontecer dali pra frente e, claro,  milhares de dúvidas surgem na cabeça com o passar dos dias.

Para responder as muitas questões que brotam de todos os lados neste período, convidei o cirurgião de cabeça e pescoço, Dr. Augusto Mendes.  Na época da minha descoberta, ele foi indicado por duas pessoas e resolvemos confiar nos depoimentos das pessoas que já conheciam o bom trabalho dele. Foi uma decisão super acertada, diga-se de passagem. :)

Dividi a entrevista em duas categorias. Na primeira, perguntas que fiz com base em pesquisa sobre o assunto. Em seguida, questões levantadas por leitores do blog que chegaram até aqui através de buscas no Google. Vamos lá?

O carcinoma papilífero figura na lista dos tumores menos agressivos. Caso não seja tratado no início, ele pode evoluir para um dos outros três tipos (folicular, medular ou anaplásico) ou continua evoluindo e crescendo, sem mudar de classificação? 

Dr. Augusto Mendes – Os carcinomas de tireoide podem ser divididos em 3 grupos: os bem diferenciados ou de baixo grau de malignidade (papilifero e folicular), os moderadamente diferenciados ou de grau intermediário de malignidade (medular), e os indiferenciados ou anaplásicos, de alto grau de malignidade.

Os bem diferenciados são derivados das células foliculares, e os medulares são provenientes das células parafoliculares. Portanto os carcinomas papiliferos não podem se transformar em carcinomas medulares, pelas linhagens celulares diversas que apresentam. No entanto, os carcinomas papilíferos ou foliculares, se não tratados e negligenciados, poderão em uma fase mais avançada se transformar em um tumor anaplásico.

Os motivos que levam o câncer de tireoide a ser mais recorrente em mulheres já são conhecidos? 

AM – As tireoidopatias benignas e também as malignas são mais incidentes em mulheres. Acredita-se que tal fato de deva ao fator hormonal ligado ao gênero.

Quais cuidados o paciente deve ter imediatamente após a tireoidectomia?

AM – Após a tireoidectomia devemos tomar alguns cuidados gerais. Evitamos molhar a cicatriz cirúrgica nos primeiros dias do pós operatório. A exposição solar deve ser evitada diretamente sobre a cicatriz por um período de 90 dias aproximadamente. Atentar para o histórico de cicatriz hipertrófica ou de quelóides, que poderão precisar de cuidados especiais como uso de corticóides ou até de betaterapia, que é uma radioterapia aplicada sobre a cicatriz, de preferência nas 24h que se seguem à cirurgia.

Depois de uma tireoidectomia, qual o prazo para voltar a fazer atividades físicas? 

AM – A volta às atividades físicas dependerá muito da programação terapêutica a que o paciente será submetido. Pela cirurgia em si, o prazo de 15 a 30 dias é o suficiente para este início. Porém, caso haja necessidade de radioiodoterapia, o paciente terá que entrar em um estado de hipotireoidismo, o que acarretará um atraso maior para esta retomada.

Existe uma posição mais indicada na hora de dormir? 

AM – Esta é uma dúvida frequente dos pacientes tireoidectomizados. Recomendamos que não se faça esforços nem movimentos bruscos na região cervical nos primeiros dias, portanto, a posição neutra do pescoço parece ser a ideal neste período, ou seja, decúbito dorsal (barriga para cima).

 Dúvidas dos leitores

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Sentir tontura após a tireoidectomia é normal? 

AM – As principais intercorrências após as tireoidectomias são relativamente raras, principalmente nas mãos de cirurgiões experientes e com vivência na área de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. A disfonia (rouquidão) pode ocorrer em cerca de 3% dos casos, e a hipocalcemia definitiva (queda permanente dos níveis de cálcio no sangue) em até 6% dos pacientes.

Tontura é um sintoma geral que pode ocorrer no pós operatório, traduzindo mais frequentemente uma hipotensão postural (queda da pressão sanguínea).

Qual o tratamento para o carcinoma papilífero? 

AM – O tratamento padrão do carcinoma papilifero da tireoide continua sendo a cirurgia seguida ou não de radioiodoterapia (a depender da classificação de risco para recidiva). A cirurgia preconizada é a tireoidectomia total, acompanhada ou não de linfadenectomia (esvaziamento) cervical. Se houver suspeita de linfonodos (gânglios) acometidos, deverá ser realizada a sua remoção. Algumas tecnologias relativamente recentes tem agregado segurança às tireoidectomias, como o bisturi harmônico e o monitor de nervo laríngeo.

Todo paciente com carcinoma papilífero tem que fazer iodoterapia? Em quais casos a iodoterapia não é recomendada?

AM – A radioiodoterapia deverá ser indicada naqueles pacientes estratificados como de alto risco para a  recidiva (volta) da doença. Alguns fatores de impacto negativo nesta classificação são idade acima de 45 anos, presença de metástases, invasão de vasos e de estruturas além da glândula tireóide, pelo tumor, ou ressecção incompleta da doença através da cirurgia.

Todo mundo que faz tireoidectomia tem depressão depois? 

AM – A depressão quando ocorre, geralmente pode ser imputada ao hipotireoidismo prolongado que poderá ser necessário para o preparo para o radioiodo. Este hipotireoidismo poderá ser evitado com o uso de TSH recombinante, que é um método “artificial” de aumentar o TSH, e então permitir o tratamento pós operatório.

Espero que possa ajudar e que tenham gostado! Mil obrigadas pela participação, Dr. Augusto! :)

Onde Dr. Augusto Fernandes Mendes atende:

Clínica MM
Centro Médico Empresarial – Av. Anita Garibaldi, nº 1815 – Sl 209 – Bloco B
Ondina – Salvador – BA
71 3247-3436

Se você está em Salvador e ainda não tem cirurgião, não pense nem um segundo a mais. Indico de olhos fechados! :)

Tirando dúvidas com Dra. Patrícia Viterbo

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E aí você:

a) Tem câncer na tireoide

b) Fez ou vai fazer tireoidectomia total

c) Fez ou vai fazer iodoterapia

d) Todas as anteriores

Não importa qual é a sua alternativa: milhares de dúvidas surgem na cabeça com o passar dos dias. Para responder as muitas questões que brotam de todos os lados neste período, convidei a endocrinologista Patrícia Viterbo. Não por acaso, é com ela que estou fazendo o acompanhamento. ;)

Dividi a entrevista em duas categorias. Na primeira, perguntas que fiz com base em pesquisa sobre o assunto. Em seguida, questões levantadas por integrantes do grupo Amigas da Tireoide. Vamos lá?

1- A tireoide tem como função principal a produção de dois hormônios, tiroxina e tri-iodotironina (T3 e T4), além da calcitonina (em menor escala em comparação com os outros dois). Apesar de não serem diretamente relacionados com os hormônios sexuais, o excesso ou a queda de produção de hormônios pela tireoide também interferem na libido. Como fica essa questão após a tireoidectomia total?

R – A deficiência ou o excesso realmente interferem na libido. Após a tireoidectomia total, fazemos reposição de levotiroxina (hormônio que a tireoide estaria produzindo) com aumento de forma gradativa, até chegar na dose adequada para cada paciente. Isso é individual e depende de vários fatores, como medicações em uso, tipo e horário de alimentação, peso, capacidade de absorção da droga e etc. Por exemplo: pessoas que se submeteram à cirurgia bariátrica, precisam de doses maiores, já que a absorção não é tão boa.

2- A presença do tumor já é suficiente para desregular os níveis de T3 e T4?

R – Não. Na maioria das vezes, os nódulos malignos estão associados com função tireoidiana normal, o que não significa que você não possa ter um nódulo maligno em paciente com hipo ou hipertireoidismo.

3- A reposição hormonal oferece riscos e efeitos colaterais a médio e longo prazos?

R – Normalmente, só se a dosagem não estiver adequada.

4- A fertilidade (masculina ou feminina) fica prejudicada?

R – Mais uma vez, a dosagem adequada é essencial para evitar esse tipo de problema.

5 – Por que é preciso tomar o hormônio em jejum e antes de se alimentar?

R – Porque o alimento interfere na absorção do hormônio. Você deve esperar 30 minutos (no mínimo) após o uso do hormônio para se alimentar e o estômago deve estar vazio.

 Perguntas do grupo “Amigas da Tireóide”

1- “Fiz uma PCI após um ano de cirurgia e iodoterapia, não deu nada, tudo limpo, mas minha TG ainda continua muito alta. No final do ano passado, fiz ultra-som, raio-x e todos os exames estavam excelentes. O único que está alterado é a TG. Mas antes da cirurgia minha TG estava na faixa de 4.600, se eu não me engano. Estou com uma Pet Scan marcada ainda pra esse mês. Queria saber se isso é normal, o que poderia ser, se pode estar tudo bem e se a TG vai caindo gradativamente mesmo…

R- A tireoglobulina é um marcador tumoral porque ela é produzida pelas células tiroidianas. O valor encontrado antes da cirurgia não deve ser considerado, pois sua tireoide ainda estava ativa. Quando o paciente é submetido à tireoidectomia total, espera-se que a tireoglobulina caia para menos de 2. Se a tireoglobulina continua alta, é preciso pesquisar a origem de produção. Como a PCI não detectou nada, a alternativa é investigar com o Pet Scan.

2- A injeção do Thyrogen atrapalha pra engravidar?

R- O Thyrogen é o TSH recombinante feito em laboratório. Ele é utilizado no exame de PCI para estimular as possíveis células tireoidianas que ainda podem permanecer no organismo a produzir tireoglobulina. Se não houver células tireoidianas, a tireoglobulina pós-thyrogen deve ser <2,0 ng/ml. Normalmente em um ou dois meses o TSH recombinante é eliminado completamente do organismo.

3 – É verdade que no caso do câncer de tireoide é preciso fazer o acompanhamento por 10 anos, ao invés de 05 anos, como nos casos de outras neoplasias?

R – Normalmente, o acompanhamento com PCI é feito durante cinco anos, mas o acompanhamento da dosagem hormonal e de tireoglobulina é feito por toda a vida. Se houver alteração de tireoglobulina, são solicitados raio-x de tórax, ultrassonografia da região cervical e pet-scan para tentar localizar o possível foco de produção da tireoglobulina.

4- Existe algum caso em que a iodoterapia não é recomendada?

R – Sim. Em alguns casos de microcarcinoma em que a captação no leito tireoidiano é menor que 2% não se recomenda iodoterapia.

5- Gostaria de saber se com mais de cinco anos de operada é preciso tomar algum tipo de vitamina ou cálcio com frequência, de uso contínuo.

R – Se não houver deficiência de cálcio ou de vitaminas, não é necessária a reposição.

Espero que possa ajudar e que tenham gostado! Mil obrigadas pela participação, Dra. Patrícia! :)

Onde Dra. Patrícia Bacelar Viterbo atende:

Multiclin – 71 3270-9200

Clínica Ser – 71 3347-0000

Clínica Humana – 71 3355 3600

Centro Médico Santo Amaro – 71 3339-5240

Centro Médico São Rafael – Garibaldi – 71 3330-5126

Direitos dos pacientes com câncer

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Pacientes com câncer têm direitos que muitas vezes desconhecem. São tantas particularidades que é melhor dar a voz a quem entende do assunto, né? ;)

O post de hoje traz uma entrevista com a Cássia Montouto. Vamos conhecê-la um pouco mais?

cassiaAdvogada, consultora e assistente jurídico. Assessora Jurídica do Instituto Oncoguia, sediado na Cidade de São Paulo. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e pós graduada em Direito Civil, Processual Civil e Empresarial pelo Complexo Jurídico Damásio de Jesus. Presta consultoria jurídica na área de Direito à Saúde, além de ministrar cursos e palestras para advogados, médicos, profissionais da saúde e pacientes. Ela também é editora do site Direito à Saúde, onde é possível encontrar um bom conteúdo sobre o tema.

O site do AC Camargo Cancer Center traz uma cartilha com todos os direitos listados. Clique AQUI e vá direto para a página.

Chega de blábláblá. Vamos conferir o que a Cássia tem a dizer? ;)

Quais são os direitos do paciente com câncer? 

Muitos são os direitos dos pacientes com câncer. Via de regra a legislação confere direitos e benefícios especiais aos portadores de doenças graves. A lei define como doença grave uma categoria de patologias entre as quais se enquadra a Neoplasia Maligna (Câncer). São exemplos de direitos concedidos aos portadores de Neoplasia Maligna o saque do FGTS, o saque das cotas PIS/PASEP, a concessão de isenção de imposto de renda  sobre os proventos de aposentadoria, pensão ou reforma. Por outro lado, existem benefícios que são concedidos a qualquer paciente, desde que apresente incapacidades para o trabalho e seja segurado do Regime Geral de Previdência Social. Estes benefícios são o Auxílio Doença (para incapacidades temporárias) e a Aposentadoria por Invalidez (para incapacidades permanentes). Por fim, existe um grupo de benefícios que dependem da verificação de incapacidade permanente após a assinatura de contrato que enseja pagamento de prêmios e/ou indenizações, como é o caso do Seguro de Vida, Previdência Privada e Quitação de Financiamento Imobiliário.

Esses direitos se aplicam a todos os casos de neoplasia? Desde os mais simples até os mais complexos? Ou existe alguma diferenciação? 

Nos casos em que a lei confere o direito única e exclusivamente pelo requisito da pessoa ser portadora de Neoplasia Maligna, sim. Como é o caso da isenção do imposto de renda. Qualquer paciente de câncer, seja do mais simples ao mais complexo, terá direito à isenção do IR sobre os proventos recebidos a título de aposentadoria, pensão ou reforma. Não importa qual é o tipo de Neoplasia apresentada. Por outro lado, existem direitos que serão concedidos a um grupo específico de pacientes, por questões que se aplicam somente a esta categoria. É o caso da isenção do pagamento do IPVA. Este benefício é estipulado pelos Estados, por se tratar de um imposto Estadual. Tenho conhecimento que a maioria das legislações estaduais conferem o direito a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida que adaptem seu veículo para suprir a deficiência apresentada. A pessoa com deficiência, ainda, terá de retirar a CNH especial para a condução de veículo adaptado às suas necessidades. As mulheres mastectomizadas são exemplo de caso que enseja o requerimento da isenção, pois poderão adaptar seu veículo com câmbio automático e direção hidráulica em razão da intervenção cirúrgica e a perda da mobilidade do braço. Este é um exemplo de benefício que se aplica a um tipo de câncer específico, qual seja o de mama, e não se aplicaria por exemplo a um câncer de garganta, por este último não ensejar nenhuma adaptação veicular.

Quais são os requisitos para entrar com o pedido de auxílio doença? 

Primeiramente, a pessoa terá de ser segurada do Regime de Previdência Social ou estar em período de graça. Por período de graça, entende-se o período que o RGPS mantém a qualidade de segurado do paciente, mesmo estando ele sem contribuir, por um determinado tempo fixado em lei. Este período varia de no mínimo 3 (meses) ao período máximo de 3 (três) anos.

Verificada a qualidade de segurado, o paciente deverá requerer o benefício em um posto do INSS ou pelo telefone 135. Será agendado um dia para a realização de perícia médica, que confirmará a incapacidade temporária para o trabalho do paciente e concederá o benefício por um período predefinido, ou negará o benefício.

Em casos de negativa há a possibilidade de ser realizado recurso administrativo perante o INSS e/ou, concomitantemente, poderá ser avaliada a viabilidade de propositura de ação judicial. Para tanto, o acesso à justiça poderá ser intermediado por profissional advogado, ou havendo a impossibilidade financeira do paciente arcar com os custos deste profissional, poderá ser contatada a Defensoria Pública mais próxima da residência do paciente.

Situação 01: Estou em período de experiência e descobri que tenho câncer. Posso ser demitida ou tenho alguma estabilidade? 

Inexiste na legislação trabalhista qualquer tipo de estabilidade concedida ao paciente com câncer em função da doença. Sendo assim, salvo casos de discriminação em que a demissão se dá única e exclusivamente por ser o empregado portador de determinada patologia, poderá ele ser desligado da empresa em qualquer momento de seu contrato de trabalho, caso convenção coletiva de trabalho não estipule o contrário. Casos de discriminação podem ser levados ao poder judiciário que tem entendido pela reintegração do empregado ao trabalho e o pagamento de indenização pelos danos morais sofridos.

Situação 02: Por causa do tratamento, entrei em licença. Tenho a garantia do emprego por algum período? 

Não. Salvo casos de doença profissional ou acidente de trabalho, inexiste na legislação direito à estabilidade de emprego pós gozo de auxílio doença. No entanto, a orientação é que o paciente contate o sindicato de sua categoria profissional para a análise da convenção coletiva de trabalho, para a verificação de existência de possível cláusula que preveja a hipótese de estabilidade ao paciente pós gozo de auxílio doença/licença.

Situação 03: A empresa não está respeitando meus direitos. A quem devo recorrer? 

A orientação é que o paciente mantenha uma relação harmoniosa com a empresa, contatando o setor de recursos humanos diante de desrespeito de algum direito específico. Se ainda assim o direito não estiver sendo respeitado, a orientação é que o paciente contate um advogado trabalhista para que seja analisado o contexto da situação e analisada a viabilidade de ações no âmbito administrativo e/ou jurídico, se necessário.

Nos casos de câncer de tireóide, existe uma injeção que traz mais qualidade de vida para os pacientes, chamada Thyrogen. Por vezes, o SUS e os convênios se negam a conceder este medicamento. O que pode ser feito?

No âmbito dos Planos de Saúde a orientação é que a ANS seja contatada (0800 701 9656), para a averiguação de irregularidade na dispensação do medicamento. Ainda, caso o medicamento não seja fornecido pelas vias administrativas, a orientação é que o paciente contate um advogado ou Defensor Público para a análise do caso e adoção das medidas judiciais cabíveis. Existem teses e jurisprudências sólidas que entendem ser indissociável ao tratamento do câncer as drogas e terapias necessárias para o alcance de sua cura. Sendo assim, uma vez que o plano cobre o tratamento de determinada patologia, deverá fornecer todo o aparato para o devido tratamento de tal patologia.

No âmbito do SUS, vários são os medicamentos dispensados para o tratamento do diversos tipos de cânceres. A primeira orientação é a contatação da Secretaria Municipal ou Estadual de Saúde para a verificação se o medicamento é dispensado pelas vias administrativas. Caso negativo, a segunda orientação é a realização de pedido formal e escrito endereçado às Secretarias de Saúde acima descritas, com a prescrição do médico e se possível estudos que demonstrem a eficácia do medicamento para o tratamento proposto. Caso haja demora na apreciação do pedido ou haja resposta negativa, caberá ao paciente procurar um advogado ou a Defensoria Pública, nos casos de impossibilidade financeira para a contratação do profissional, para que o pedido seja realizado pelas vias judiciais, e entendendo o poder judiciário pela concessão do medicamento, possa o paciente dar prosseguimento ao seu tratamento.

Espero que possa ajudar e que tenham gostado! Mil obrigadas pela participação, Cássia! :)