Outros relatos – Daniela Freitas

Oiê! : )

Como falei no último post, dividir a questão trouxe à tona um montão de histórias de pessoas que já passaram pelo mesmo que eu. Há quem tenha enfrentado o câncer de tireóide há 25 anos, 10 anos, 02 anos, 01 ano. A minha caminhada mal começou, então achei interessante trazer os relatos daqueles que já passaram de fase e hoje estão bem.

Nossa primeira convidada é a Daniela Freitas. Ela é baiana, tem 26 anos e… e… bem, vamos deixar as apresentações e tudo mais com ela, né?    : )

guestpost

Olá. Chamo-me Daniela Freitas, sou baiana, engenheira eletricista e hoje estou com 26 anos. Fui convidada a contar um pouco a minha história e de como foi ter carcinoma papilífero aos 15 anos. Desde aquela época vivo em guerra com a balança, e foi por essa causa que minha mãe marcou uma consulta para mim com uma endocrinologista amiga da família (Dra. Patrícia Bacelar Viterbo, meu anjo até hoje). Consulta de rotina. Porém, enquanto ela estava examinando meu pescoço, detectou que alguma coisa estava errada. Depois de exames laboratoriais e ultrassom da tireoide, fui diagnosticada com hipertireoidismo (uma ironia, já que esse tipo de anomalia tem como sintoma perda de peso, e não ganho) e nódulo na tireoide. Como meu pai teve problema parecido, benigno, elegemos como causa fatores genéticos.

 Diagnosticado o nódulo (não lembro as dimensões), fui encaminhada para punção. O diagnóstico foi de nódulo benigno. Mesmo assim, minha médica indicou cirurgia para retirada do nódulo e de 70% da tireóide. Indicou também que procurasse o Dr. Jorge Bastos. Ele não era cirurgião de cabeça e pescoço, e sim cirurgião geral, e trabalhava com transplante de fígado e rins, porém tinha sido professor da minha médica e ela confiava nele. Como o plano cobria, nem procuramos outra opção.

 Fiz a cirurgia em março de 2002, no hospital Aliança, aqui em Salvador. A cirurgia transcorreu bem. Os inconvenientes eram evitar falar, como medida preventiva para proteger as cordas vocais, e o pós operatório. Como qualquer cirurgia, tive que ter alguns cuidados, como proteger para não abrir os pontos e ter uma higiene especial no local. Lembro que passei um tempo usando uma espuma triangular para dormir, pois ficava com medo de abrir os pontos a noite. A biópsia, que é feita no momento da cirurgia, continuou dando resultado benigno.

 Uma semana depois, retornei ao consultório do cirurgião para retirar os pontos e para levar o resultado da biópsia que tinha sido feita no restante do material que havia sido retirado. Não sei quem ficou mais sem chão, minha mãe ou o médico, ao verem que o resultado apontava de presença de material maligno nessa última biópsia. O meu nódulo de fato tinha sido benigno. Porém, havia uma formação maligna de menos de um centímetro escondida atrás desse nódulo. E a questão naquele momento era que ainda restavam 30% de tireoide no meu corpo, que deveriam ser retirados o quanto antes. Já sai do consultório com nova cirurgia marcada, não lembro bem se para o próximo dia ou o seguinte.

 Nessa noite minha mãe não dormiu, chorando. Porém, tentou o máximo que pôde se fazer de forte na minha frente. Eu, que na época era muito engajada no movimento espírita, estava (e estive ao longo de todo o processo) muito tranquila. Já tinha pesquisado e sabia que as chances de cura eram muito grandes. Além disso, se eu viesse a morrer, contrariando as estatísticas, não seriam um fim, e sim um novo começo. Sendo assim, era eu quem acalmava as pessoas e afirmava “vai dar tudo certo, sim”, e não o contrário. E eu só tinha 15 anos.

 Feita a segunda cirurgia, passei a parte complementar do tratamento. Tive que fazer iodoterapia para eliminar qualquer vestígio de célula cancerígena que pudesse ainda existir no meu corpo. Esse tratamento exige uma infraestrutura especial, pois usa material radioativo, e naquela época, em Salvador, apenas o Hospital Aristides Maltez – HAM estava apto a fazê-lo. O Hospital Português ainda estava construindo a unidade de iodoterapia, ou tinha construído a pouco tempo e ainda não aceitava o meu plano, não lembro ao certo. Porém, existia uma fila grande para conseguir vaga no HAM e, além disso, estávamos bastante resistentes em fazer um tratamento por lá devido a atmosfera hostil do local. Meu tratamento tinha sido muito tranquilo até então, e não queríamos entrar naquela vibe (quem conhece o HAM sabe do que estou falando).

Sendo assim, o como o meu plano tinha cobertura nacional, resolvemos fazer o tratamento em Brasília, no hospital onde uma prima minha era enfermeira chefe.

Entre a retirada da tireoide e a iodoterapia não se faz reposição hormonal. Com a tireoidectomia, mesmo quem tinha hipertireoidismo passa a ter hipotireoidismo. E sem a reposição todos os sintomas se manifestam. Nesse período fiquei muito prostrada. Dormia quase o dia todo. E lembro que até meu ciclo menstrual ficou confuso.

 Fiz a iodoterapia em junho de 2002, em plena copa do mundo de futebol. O procedimento foi muito simples. Foi nada mais, nada menos, que tomar poucos mililitros de um líquido transparente e sem gosto (iodo 131 – radioativo), e aguardar até que o nível de radiação no corpo decaia a níveis em que se possa conviver com outras pessoas sem atingi-las. Dessa forma, passei alguns dias em regime de isolamento. Fui colocada em um quarto especial, construído com paredes reforçadas, e não podia receber visitas, e nem mesmo ter contato com o corpo técnico do hospital. Depois do período no hospital, passei por mais 7 dias de “semi-isolamento”. Ou seja, pude sair de lá, mas as pessoas só podiam chegar a uma distância de 2 metros de mim. Depois disso, a vida voltou ao normal. Não pude assistir o Brasil ganhar o penta junto com minha família, porém, por outro lado, pude ir com eles ver o desfile da seleção na capital federal, já com a taça em mãos.

 Finalizado o tratamento, estava curada do câncer. Porém, já não tinha mais tireoide, uma glândula que quase não se ouve falar até se ter algum problema, mas que tem uma importância enorme para o funcionamento do organismo. Passei, então, a fazer reposição hormonal com Levoritoxina Sódica. Levaram-se alguns meses até que a minha endocrinologista conseguisse ajustar o nível certo de hormônio para mim. Essa dosagem é feita com base especialmente nos níveis de outros dois hormônios, o T4 e o TSH.

Nos 5 anos que se seguiram continuei fazendo anualmente um exame chamado cintilografia, que, usando contraste, rastreia vestígios da presença de células tireoidianas no organismo. É um exame que monitora uma possível metástase, que é muito improvável ocorrer no caso de câncer de tireóide. Depois disso, passei a me considerar definitivamente curada.

Aprendi que é muito importante fazer o acompanhamento frequente dos meus níveis hormonais, pois ficar com níveis incorretos pode trazer sintomas dos mais diversos, que vão da queda de cabelo a depressão. E uma alteração de peso, por exemplo, pode alterar as taxas hormonais. Por isso, retorno a cada 6 meses ao consultório da minha médica para verificar se está tudo “ok”.

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